A pesquisa no Brasil e o salário de fome: pelo reajuste das bolsas de pós-graduação

Atualizado: 11 de mar.

As bolsas de mestrado e doutorado vinculadas à Capes e ao CNPq - instituições públicas de fomento à pesquisa no Brasil - custam, respectivamente, R$ 1.500 e R$ 2.200 e não são reajustadas desde 2013. Segundo nota recente no site da Associação Nacional dos Pós-Graduandos (ANPG), nesses 8 anos de déficit, a perda de poder de compra supera 60%. Se o INPC (Índice Nacional de Preços ao Consumidor) do IBGE fosse aplicado às bolsas, os valores subiriam para R$ 2.452 no caso de mestrandas, e R$ 3.596 para os doutorandas.


Com o custo de vida exorbitante que assola a classe trabalhadora neste período de recessão econômica e de inflação, o valor das bolsas não custeia os recursos mínimos necessários para a reprodução da vida - como moradia, alimentação, gás de cozinha, por exemplo. Principalmente se é preciso sustentar uma família com esse “salário”.

No texto ‘Pesquisador faminto e o papel da luta política’, publicado originalmente aqui, nossa associada e membra da atual diretoria da ABMGeo - chapa (Geo)Diversas -, Talita Gantus descreve um triste cenário: “Quem é pós-graduando/a no Brasil experimenta um desânimo e uma permanente ansiedade em relação ao futuro. Já não é fácil bancar as condições materiais básicas necessárias à reprodução diária da vida, que dirá planejar um futuro promissor para uma carreira fadada a uma competição miserável, baseada numa produção acadêmica fordista, desanimadora e desvinculada das reais necessidades sociais, e que não dá conta de absorver tanta mão de obra qualificada.”

Em outro texto, intitulado ‘Pesquisador é profissão?’, acessado na íntegra aqui, Talita chama atenção para o seguinte fato:

“A última pesquisa realizada pelo Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Econômicos) mostrou que o salário mínimo necessário para se manter uma condição de vida digna no Brasil seria de R$4.536,12 (o salário mínimo nominal vigente é R$1.045). Ao mesmo tempo, cerca de 40% das despesas de consumo da população urbana brasileira vai para moradia. No Brasil, ao serem [frequentemente] chamados de bolsistas, oculta-se o verdadeiro trabalho desenvolvido pelos pós-graduandos, como se a recompensa pela pesquisa fosse uma bonificação, uma bolsa. A definição de pesquisador como profissão e da bolsa como salário, por sua vez, mudariam o tom da relação e dariam à pessoa o devido reconhecimento pelo papel que desempenha - como qualquer trabalhador na sociedade. Lembro, ainda, que os pesquisadores bolsistas não podem estabelecer vínculo empregatício durante a vigência da bolsa; ou seja, a complementação da renda cai na ilegalidade e na informalidade. Somado a isso, como não há vínculo trabalhista, também não há direitos trabalhistas, não há férias, nem 13º, nem previdência, e nem direito ao seguro desemprego para as bolsistas.”

O corte de financiamento imposto pelo teto de gastos, preconizado em 2016 pela PEC 55/2016, foi pensado junto às elites em áreas que são estratégicas a um país soberano: saúde e educação.

A crise no setor educacional público no país, promovida pelo sucateamento das instituições e pela falta de investimento no desenvolvimento de pesquisas, faz parte de um projeto de país que nós, da ABMGeo, consideramos afetar de maneira direta e negativa na vida das mulheres pesquisadoras e professoras das geociências, principalmente as mulheres negras, da classe trabalhadora, mães e PCD’s (pessoas com deficiência).

Nesse sentido, viemos manifestar nosso apoio à reivindicação levantada pela ANPG, e fazer um apelo para que os sindicatos e associações de professores universitários se somem na luta das pós-graduandas para que as demandas solicitadas sejam atendidas. Sem a pós-graduação não há pesquisa possível no Brasil. Sem um desenvolvimento científico, tecnológico e social, jamais seremos um país verdadeiramente soberano.


A ANPG lançou um abaixo-assinado reivindicando o reajuste das bolsas de pesquisa de mestrado e doutorado. Em menos de 24 horas, a iniciativa já recebeu mais de 6900 assinaturas de apoio. Para participar do abaixo-assinado dessa mobilização nacional, clique aqui.

REAJUSTE JÁ!!!



Chapa (Geo)Diversas

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