Desastre em Petrópolis e sua relação com o papel de Geocientistas

Atualizado: 15 de jun.

Nasci e cresci em Petrópolis, uma cidade que encanta a todos por seu patrimônio histórico e também, especialmente para mim, estudante de geologia, seu patrimônio natural repleto de paisagens exuberantes espalhadas no seu relevo montanhoso.



Essa cidade, onde estive minha vida inteira, está passando por um de seus piores momentos após um temporal que transformou toda essa beleza num cenário de guerra, coberto por uma mistura de lama, bens materiais destruídos e muita tristeza por aqueles que se foram ou estão desaparecidos. A cidade já teve diversos episódios tristes relacionados às chuvas, mas não como esse.


Por sorte, eu e minha família estamos à salvo, porém isso está longe de ser apenas sorte. Tenho o privilégio de ter minha casa em uma área segura e de poder contar com meu conhecimento para identificar áreas de risco, que provavelmente adquiri apenas por fazer parte do universo das geociências.


Esse privilégio de conhecimento traz à tona um sentimento de responsabilidade muito grande. Isso é afirmado, pois há menos de duas semanas antes da tragédia, realizei um curso exatamente sobre o tema, onde pude ter ainda mais certeza de que minha cidade corria sim, um grande risco.


Meus colegas de profissão, todos, estão minimamente cientes do que causa esse tipo de tragédia. Então me pergunto, por que somos tão poucos atuando nas prefeituras e na defesa civil de municípios vulneráveis? Até quando, a maior parte de nossos colegas estarão concentrados em atividades exploratórias?


Estamos vendo uma crescente mudança nesse cenário, pois muitos estão migrando para áreas de meio ambiente e sustentabilidade, mas fica nítido que ainda não estamos nem perto do ideal. Fiquei bastante incomodada em assistir ao noticiário sem ver uma explicação, completa e acessível, das causas do ocorrido, esclarecendo processos que geram movimentos de massa ou os motivos das inundações. Nesses momentos, a atenção fica voltada à temática, fazendo com que seja um dever, a divulgação desse conhecimento para a sociedade. Com certeza esperar que tragédias aconteçam para trazer o foco para o problema, não previne nada.


Nós geocientistas, precisamos trabalhar intensamente e recorrentemente na divulgação científica, fazendo com que esse conhecimento ultrapasse nosso meio que é tão limitado. Existem diversas formas de isso ser feito, por exemplo, nos projetos de extensão universitária, que têm extrema importância na educação da população. Não podemos ficar sentados em nossas casas, assistindo tudo isso sem nos mexermos!


Conhecemos as rochas, os solos, as águas e seus processos de interação, o que nos torna aptos a solucionar problemas resultantes da interação entre o meio físico e atividades antrópicas. Por isso, é de extrema importância participarmos e cobramos nossa participação em peso nas equipes multidisciplinares que trabalham no planejamento urbano e na prevenção de desastres.


Estamos vendo, diante de nossos olhos, em diferentes estados do Brasil, os estragos causados pelas chuvas. Temos tido diversas evidências de que futuros eventos climáticos extremos vão ocorrer. O clima já não é o mesmo. Ainda assim, o negacionismo climático vem crescendo. Cabe a nós, geocientistas, propagar para todos os lados, utilizando de todos os meios necessários, o conhecimento sobre o nosso planeta.


As políticas públicas não podem ser negligentes à prevenção de desastres. Não há efeito num mapeamento de área de risco, se a sua função se limita apenas à identificação dessas áreas. Ações imediatas precisam ser realizadas, para que haja antecedência, pois nunca se sabe o dia que um desastre como esse irá acontecer. Precisamos cobrar nossos representantes, para estreitar o diálogo entre o Estado e a sociedade.


Estou em luto pela minha cidade.


Meus sentimentos a todas as famílias que estão passando por perdas tão grandes.


Que esse episódio sirva de muito aprendizado e que Petrópolis, minha cidade do coração, consiga se reerguer o mais rápido possível.


Saiba onde doar em:


https://doepetropolis.com.br/



Esse texto é de autoria de:


Raphaela De Negri tem 24 anos, nasceu em Petrópolis e se mudou para o Rio de Janeiro para fazer faculdade. É estudante do décimo período de graduação em Geologia na Universidade Federal do Rio de Janeiro, atua como estagiária no Serviço Geológico do Brasil, é membro do AAPG Student Chapter, faz parte do Grupo de Estudos sobre Geodiversidade e Memória da Terra e foi bolsista do Projeto Geoparque Costões e Lagunas do RJ por 3 anos. No Geoparque, trabalhou na elaboração do inventário do projeto, realizando ações de extensão através da Geocomunicação nas redes sociais, da Geoeducação e do Geoturismo.




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