Onde a geologia e a história da população negra se encontram na cidade do Rio de Janeiro?

Atualizado: 5 de out. de 2021

Por Larissa Lago



Todos que chegam à cidade do Rio de Janeiro notam de imediato sua beleza, que mistura praia com florestas e maciços rochosos que saltam ao relevo. As rochas estão presentes tanto no cenário natural, a exemplo dos morros do Pão de Açúcar, Corcovado ou Pedra de Gávea, quanto nas fachadas dos principais edifícios históricos da cidade, como o Teatro Municipal, a Igreja da Candelária e o Forte de Copacabana.


Nessa mesma cidade está preservado o que foi o principal porto de chegada de africanos escravizados da América Latina e, como todos sabem, a cidade do Rio de Janeiro foi construída às custas de muito suor e sangue desses africanos. O município é hoje o segundo mais negro do país, esbanja cultura negra e a resistência dos afrodescendentes.

Mas afinal, essas duas histórias se encontram? Para responder a essa questão entrevistamos a geóloga Kátia Mansur, Professora do Instituto de Geociências da UFRJ, onde leciona as disciplinas Geologia Geral e Geoconservação.


Para Kátia, essas duas histórias se encontram já na chegada da população africana no Cais do Valongo, onde estima-se que desembarcaram de 500 mil a 1 milhão de africanos escravizados. Kátia conta que no Cais do Valongo estão sendo descritos blocos de gnaisse facoidal, leptinito, kinzigito e diabásio, sendo os gnaisses formados durante a amalgamação e o diabásio formado durante a separação do continente Sul-Americano do continente Africano. Portanto, milhões de anos depois, o mesmo local que guarda o registro geológico da união e posterior separação desses dois continentes também passou a guardar o registro histórico do doloroso reencontro.


Kátia indica ainda que a geologia também está presente em um dos maiores símbolos de dor, resistência, e cultura negra da cidade, o Quilombo da Pedra do Sal. A região do entorno da Pedra do Sal, incluindo o Cais do Valongo, mantém viva a triste história da chegada e comercialização dos africanos escravizados. No momento do desembarque, muitos já estavam mortos ou doentes devido às condições insalubres da viagem. Essa história também contempla a disposição do povo negro que estava aqui pronto para receber os novos africanos. A população negra que já residia no Brasil preparava comida para os recém-chegados, cuidava dos doentes e fazia o sepultamento dos que haviam falecido. O local guarda, por fim, a história de resistência de um povo que, mesmo após vários processos de tentativa de expulsão daquela área, reivindicou seus direitos até que a importância do Quilombo da Pedra do Sal fosse devidamente reconhecida.


Cais do Valongo, Rio de Janeiro.


A “Pedra do Sal” nada mais é do que um belo afloramento de gnaisse facoidal. Essa rocha que presenciou os horrores aos quais eram submetidos os africanos escravizados também pôde, e ainda pode, acompanhar de perto a resistência dos descendentes desse mesmo povo através de sua religião, de sua música e de sua alegria expressa no carnaval.


Pedra do Sal, Rio de Janeiro.


Aliás, a professora Kátia Mansur conta que o gnaisse facoidal é tão íntimo do carnaval carioca que no desfile do ano de 2016 do Acadêmicos do Salgueiro, com o samba enredo “A Ópera do Malandro”, o próprio estava lindamente desenhado em muitos dos carros alegóricos.


Kátia também lembra, ao citar o artigo “Cantarias e pedreiras históricas do Rio de Janeiro: instrumentos potenciais de divulgação das Ciências Geológicas” dos Pesquisadores da UFRRJ Soraya Almeida e Rubem Porto, que o próprio desenvolvimento da cidade se deu a partir da exploração de pedreiras. Algumas delas eram localizadas na própria região que hoje é denominada Pequena África.


O andar pela região central deixa evidente que as mãos negras que ergueram a cidade do Rio de Janeiro tinham muitos dons e talentos em mineração e extração de rocha ornamental. A maestria no ofício é expressa pela qualidade das fachadas dos prédios históricos.


O que ainda intriga a pesquisadora são as esculturas encontradas de gnaisse facoidal. Como se trata de uma rocha muito resistente, pode-se imaginar como deve ter sido difícil esculpi-la de forma tão delicada. Kátia diz que não sabe a origem do dom desses artistas. Seria da África? Seria da Europa? Fica a incógnita.



Larissa Lago

Larissa é graduada em geologia e atualmente é doutoranda em geotecnia na engenharia civil da PUC-Rio, onde trabalha com mecânica das rochas e geologia de engenharia. Autou na ABMGeo nacional como diretora de núcleos e fundou junto com outras geocientistas pretas o Grupo Yangì de Geocientistas Pretos. É associada da ABMGeo.


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